Inteligência artificial e direitos autorais no Brasil

Tempo de leitura: 5 minutos

A relação entre inteligência artificial e direitos autorais é um dos debates mais urgentes do direito contemporâneo. Ferramentas como ChatGPT, Midjourney, Sora e Stable Diffusion produzem textos, imagens, músicas e vídeos com uma velocidade impressionante — e isso levanta questões que a legislação brasileira ainda não responde de forma clara. Quem é o autor de uma obra criada por uma IA? Essa obra pode ter proteção legal? E o que acontece quando uma IA usa obras protegidas para aprender? Essas perguntas preocupam criadores, empresas e advogados no Brasil e no mundo inteiro.

O que a lei brasileira diz sobre inteligência artificial e direitos autorais

No Brasil, a Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/1998) define que o autor é sempre uma pessoa física. Portanto, uma inteligência artificial — por não ser humana — não pode ser considerada autora de nada, ao menos pela legislação vigente. Isso parece simples, mas gera uma série de consequências práticas bastante complexas.

Por exemplo, se você pede para uma IA gerar uma imagem e a utiliza comercialmente, essa imagem é sua? Você tem direitos sobre ela? A resposta depende de vários fatores, como o nível de criatividade humana envolvida no processo, os termos de uso da plataforma utilizada e a interpretação que os tribunais adotarão futuramente. Além disso, a discussão ainda está em aberto no Congresso Nacional, que debate ativamente projetos de lei para regulamentar o tema.

De fato, o funcionamento dos direitos autorais no digital já era complexo antes da IA — e a tecnologia tornou esse cenário ainda mais desafiador para quem cria, consome ou monetiza conteúdo.

Inteligência artificial e o uso de obras protegidas no treinamento

Um ponto central do debate sobre inteligência artificial e direitos autorais envolve o chamado “treinamento” dos modelos. Para aprender a gerar conteúdo, esses sistemas consomem enormes volumes de dados — textos, imagens, músicas, vídeos — muitas vezes coletados da internet sem autorização expressa dos titulares.

Isso levanta uma questão jurídica séria: usar obras protegidas para treinar uma IA configura violação de direitos autorais? No Brasil, a Lei nº 9.610/1998 protege obras originais desde a sua criação, independentemente de registro. Portanto, usar um texto, uma fotografia ou uma composição musical protegida sem licença pode, em tese, constituir infração — mesmo que o objetivo seja “ensinar” uma máquina.

No cenário internacional, esse debate já chegou aos tribunais. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Getty Images processou a Stability AI por usar milhões de fotografias protegidas sem licença. Na Europa, o AI Act da União Europeia já exige que empresas de IA informem quais dados usaram no treinamento dos seus modelos. Consequentemente, o Brasil tende a seguir esse caminho regulatório nos próximos anos.

O que dizem os projetos de lei brasileiros sobre IA

O Brasil tem discutido ativamente a regulamentação da inteligência artificial. O PL 2.338/2023, aprovado no Senado Federal, prevê regras gerais para o uso responsável de IA no país. No entanto, o texto ainda não aborda de forma específica e definitiva a questão dos direitos autorais sobre obras geradas por IA.

Paralelamente, a ABPI (Associação Brasileira da Propriedade Intelectual) e outras entidades do setor têm pressionado por regulamentação específica. Além disso, o INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) ainda não aceita o registro de obras exclusivamente criadas por máquinas. Ou seja, sem um humano identificável como criador, a proteção autoral simplesmente não existe no Brasil atual.

Quem detém os direitos sobre uma obra gerada por IA?

Essa é, sem dúvida, uma das perguntas mais práticas e relevantes para quem trabalha com tecnologia criativa. Na ausência de uma lei específica, a tendência é que os direitos recaiam sobre quem exerceu a maior contribuição criativa humana no processo.

Por exemplo, se um designer utiliza uma IA como ferramenta — da mesma forma que usa o Photoshop — e toma decisões criativas substanciais (escolha de composição, cor, estilo, edição final), há um argumento razoável de que ele é o autor da obra resultante. Por outro lado, se o usuário apenas digitou um prompt genérico e aceitou o primeiro resultado, a autoria humana é questionável.

Além disso, os termos de uso das plataformas de IA têm papel fundamental aqui. Algumas empresas, como a Midjourney, reservam para si direitos sobre as imagens geradas pelos usuários em planos gratuitos. Portanto, ler e entender os contratos de uso dessas ferramentas é essencial antes de comercializar qualquer conteúdo produzido com inteligência artificial.

Riscos para empresas que usam conteúdo gerado por IA

Empresas que utilizam inteligência artificial para produzir conteúdo enfrentam riscos jurídicos concretos que muitas vezes subestimam. Entre os principais, destacam-se:

  • Uso indevido de obras de terceiros que podem ter sido incorporadas ao treinamento da IA
  • Falta de titularidade clara sobre o conteúdo produzido, dificultando o registro e a proteção
  • Violação de contratos com clientes que exigem originalidade e autoria humana
  • Exposição a ações judiciais de artistas, fotógrafos e escritores cujas obras foram usadas sem licença
  • Riscos de imagem e reputação, especialmente em setores como publicidade e jornalismo

Consequentemente, estruturar uma política interna de uso de IA, com assessoria jurídica especializada, deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade estratégica para qualquer empresa que opera com produção de conteúdo digital.

Inteligência artificial, plágio e a questão da originalidade

Outro ponto sensível envolve a linha tênue entre criação e plágio quando falamos de IA. Sistemas de inteligência artificial generativa aprendem padrões a partir de obras existentes e, por isso, podem produzir resultados que se assemelham — às vezes de forma alarmante — a obras já protegidas.

No campo da música, por exemplo, diversas composições geradas por IA foram questionadas por soarem muito parecidas com obras de artistas conhecidos. No campo visual, imagens geradas por prompts específicos podem reproduzir o estilo característico de um ilustrador ou fotógrafo. Embora o estilo em si não seja protegido pela lei autoral, os limites entre inspiração e reprodução ilícita podem ser muito tênues na prática.

Para entender melhor como o plágio funciona juridicamente, vale conferir nosso artigo sobre plágio, quando é crime e quais são as consequências legais. Além disso, quem desenvolve software com auxílio de IA deve ficar atento à proteção do código-fonte, tema que abordamos no artigo sobre registro de software e proteção de código.

Como proteger suas criações em um mundo com IA

Diante de tanta incerteza, o que um criador ou empresa pode fazer para se proteger? A boa notícia é que existem caminhos práticos e juridicamente fundamentados. Veja alguns deles:

  • Documente o processo criativo: guarde rascunhos, prompts utilizados, versões intermediárias e decisões editoriais. Isso serve como prova da contribuição humana em caso de disputa.
  • Registre suas obras: mesmo que o registro não seja obrigatório no Brasil, ele facilita enormemente a prova de autoria e anterioridade.
  • Leia os termos de uso das ferramentas de IA: muitas plataformas limitam ou transferem direitos sobre o conteúdo gerado. Conhecer essas regras evita surpresas.
  • Use licenças claras nos seus contratos: se você entrega conteúdo para clientes, especifique se houve uso de IA e defina quem detém os direitos sobre o resultado final.
  • Busque orientação jurídica especializada: a legislação está em constante evolução, e um advogado atualizado pode identificar riscos que você talvez não perceba.

Dessa forma, mesmo em um cenário regulatório ainda em construção, é possível adotar uma postura proativa e responsável em relação à inteligência artificial e direitos autorais.

O futuro da proteção no âmbito da inteligência artificial e direitos autorais

O debate sobre inteligência artificial e direitos autorais está longe de ser encerrado. Pelo contrário: à medida que os modelos de IA se tornam mais sofisticados e suas criações mais indistinguíveis das humanas, as pressões sobre legisladores, tribunais e organismos internacionais tendem a crescer.

No plano global, a OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual) tem conduzido discussões amplas sobre o tema, reconhecendo que os tratados internacionais de propriedade intelectual foram criados em uma era pré-IA e precisam de atualização. No Brasil, o momento exige atenção constante às mudanças legislativas e decisões judiciais que vão moldando o entendimento sobre o assunto.

Por isso, tanto criadores independentes quanto empresas de tecnologia devem acompanhar de perto essa evolução — e contar com suporte jurídico qualificado para navegar nesse terreno ainda movediço.

Dúvida sobre inteligência artificial e direitos autorais? Fale com a Rocco & Canonica — Advogados

A interseção entre inteligência artificial e direitos autorais exige uma visão jurídica atualizada, estratégica e profundamente conectada com a realidade digital. Na Rocco & Canonica — Advogados, atuamos com foco em direito digital e propriedade intelectual, assessorando criadores, desenvolvedores e empresas que precisam de clareza e segurança jurídica nesse cenário em constante transformação.

Se você produz conteúdo com IA, desenvolve ferramentas tecnológicas ou quer proteger suas criações diante dos novos desafios do mercado, estamos prontos para ajudar. Entre em contato com nosso escritório e descubra como podemos construir juntos a estratégia jurídica mais adequada para o seu caso.

Além disso, acesse nossa página especializada em direitos autorais para entender como o nosso time pode proteger suas obras e seu negócio no ambiente digital.

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Scott Rocco Dezorzi

Advogado Especialista em Direito Digital, Propriedade Intelectual e Proteção de Dados

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