O pedido de registro de marca com especificação de livre preenchimento permite descrever produtos ou serviços que não aparecem adequadamente nas listas pré-aprovadas do INPI. Essa flexibilidade, porém, exige precisão: a redação precisa caber em uma única classe, corresponder à atividade do requerente e delimitar a proteção sem criar ambiguidades.
Por isso, a escolha não deve começar pelo formulário. Primeiro, é necessário mapear o que a empresa realmente oferece, consultar a Classificação de Nice e procurar termos equivalentes nas listas auxiliares. Só então faz sentido avaliar o campo livre. Neste artigo, você entenderá quando usar o código 394, como redigir a especificação e quais erros podem comprometer o pedido.
O que você encontrará neste artigo
O que é o pedido de registro de marca com especificação de livre preenchimento?
Em primeiro lugar, todo pedido de marca precisa indicar os produtos ou serviços que o sinal pretende distinguir. Portanto, essa descrição define o campo de proteção solicitado e orienta a busca por direitos anteriores. Assim, ela não é um detalhe burocrático nem uma simples cópia do objeto social.
Além disso, o INPI oferece listas com termos pré-aprovados, organizados conforme a Classificação Internacional de Nice e listas auxiliares. Quando nenhuma expressão descreve adequadamente a atividade, o requerente pode usar o pedido eletrônico com especificação livre. Segundo o Manual de Marcas do INPI, essa modalidade corresponde ao código 394 e disponibiliza um campo para inserir termos redigidos pelo próprio usuário.
“Livre”, contudo, não significa ilimitado. Por isso, todos os itens devem pertencer à mesma classe e guardar relação com a atividade efetivamente exercida. Além disso, a descrição precisa permitir que o examinador identifique com clareza a natureza do produto ou serviço.
Quando usar a especificação livre?
Nesse sentido, a modalidade é útil quando o produto ou serviço não consta literalmente das listas oficiais e um termo pré-aprovado próximo seria amplo, estreito ou impreciso demais. Isso pode ocorrer em modelos de negócio novos, soluções tecnológicas híbridas ou atividades muito especializadas.
Antes de escolher o código 394, pesquise a classificação de produtos e serviços disponibilizada pelo INPI. O próprio Manual recomenda procurar analogias capazes de refletir o item da forma mais fiel possível. Se a lista já contiver uma descrição adequada, o termo pré-aprovado costuma ser o caminho mais simples.
Em contrapartida, não vale forçar um termo padronizado apenas para evitar a especificação livre. Uma descrição desalinhada com a atividade pode deixar o negócio sem a cobertura necessária. Também pode dificultar a comparação com marcas anteriores.
O pedido de registro de marca com especificação de livre preenchimento faz sentido, por exemplo, quando uma plataforma oferece um serviço específico que combina tecnologia e uma função profissional. Nesse caso, a análise deve separar a tecnologia disponibilizada da atividade final prestada ao cliente. Essa distinção ajuda a escolher a classe correta e a formular cada item com precisão.
Qual é a diferença entre os códigos 389 e 394?
Em primeiro lugar, o código 389 utiliza a especificação pré-aprovada para marcas de produto ou serviço e marcas coletivas. Assim, o requerente seleciona uma classe e escolhe os itens disponíveis no sistema. Como esses termos já foram aceitos para fins classificatórios, o pedido dispensa a análise de adequação da especificação e pode ter processamento mais simples.
Já o código 394 permite combinar itens pré-aprovados com expressões de livre preenchimento. Ele se aplica a marcas de produto ou serviço e a marcas coletivas. Para marcas de certificação, o Manual indica outra sistemática: usa-se o código 389, cujo formulário já contém campo próprio para a descrição pertinente.
A diferença, portanto, não se resume ao valor da guia. A escolha muda o próprio formulário e a forma como os itens serão examinados. Por isso, emitir a GRU antes de concluir a estratégia de classificação pode obrigar o requerente a refazer etapas.
Quem ainda está organizando todo o protocolo pode consultar nosso guia sobre como registrar uma marca no INPI. Ali, o procedimento completo aparece em perspectiva; aqui, o foco permanece na redação da especificação.
Como redigir a especificação de livre preenchimento?
Antes de tudo, comece descrevendo a atividade real em linguagem objetiva. Prefira substantivos reconhecidos pelo setor e indique a função central do produto ou serviço. Quando um termo técnico for indispensável, acrescente elementos que esclareçam sua finalidade. Assim, a redação deixa menos espaço para interpretações divergentes.
Depois, confira se cada item pertence à mesma classe. Um pedido não pode reunir produtos ou serviços de classes diferentes. Se o negócio atua em mais de uma classe, poderá ser necessário apresentar pedidos distintos, cada qual com sua especificação correspondente.
Também convém observar quatro critérios:
- clareza: o leitor deve entender o que é oferecido sem depender de material externo;
- precisão: expressões como “serviços diversos” ou “produtos em geral” não delimitam a atividade;
- coerência: a descrição deve combinar com a classe escolhida;
- aderência: os itens devem corresponder à atividade lícita e efetiva do requerente.
Nesse sentido, o artigo 128 da Lei nº 9.279/1996 exige que pessoas de direito privado exerçam efetiva e licitamente a atividade relacionada ao pedido, de modo direto ou por empresas controladas. Por isso, incluir atividades futuras apenas para “reservar mercado” cria um risco desnecessário.
Finalmente, digite toda a especificação no campo próprio do formulário. O INPI não aceita um anexo como substituto desse preenchimento. Revise pontuação, duplicidades e consistência antes de enviar.
Quais erros na especificação de livre preenchimento podem gerar exigência?
Nesse contexto, um erro frequente é misturar itens de classes diferentes. Outro consiste em descrever apenas a tecnologia usada, sem esclarecer o serviço entregue. Termos publicitários, promessas de qualidade e nomes comerciais também não cumprem bem a função classificatória.
Há ainda especificações extensas que repetem sinônimos sem ampliar a compreensão. Quantidade não substitui precisão. O objetivo é delimitar a atividade de forma suficiente, e não reproduzir todo o planejamento empresarial.
Evite, sobretudo:
- copiar a especificação de outro processo sem verificar a atividade e a classe;
- usar expressões abertas, como “incluindo, sem limitação”;
- confundir comércio de produtos com a fabricação desses mesmos produtos;
- descrever software sem indicar sua função ou forma de disponibilização;
- inserir itens que o requerente não exerce ou não pode comprovar.
A especificação correta não substitui a análise de disponibilidade do sinal. Mesmo com os itens bem formulados, uma marca anterior pode impedir o registro. Nosso artigo sobre colidência de marcas explica como o INPI avalia conflitos entre sinais e atividades.
É possível alterar a especificação depois do protocolo?
Por sua vez, essa é uma das decisões mais sensíveis do pedido. Conforme o Manual de Marcas, a especificação de livre preenchimento não pode ser modificada depois do depósito, salvo para restringir seu alcance por meio da petição adequada. Em outras palavras, o requerente pode excluir ou limitar itens, mas não acrescentar uma atividade que ficou de fora.
A regra protege terceiros e preserva a data do depósito. Se fosse possível ampliar a lista posteriormente, o titular poderia conquistar prioridade sobre um campo que não reivindicou no início. Logo, uma omissão relevante pode exigir um novo pedido, com nova data de prioridade e nova análise.
Por esse motivo, vale comparar a especificação com contratos, site, notas fiscais e plano de operação. A redação deve representar o negócio atual sem se tornar artificialmente ampla.
O que fazer se o INPI formular uma exigência?
Primeiro, leia o despacho completo e identifique a inconsistência apontada. Portanto, a resposta sobre a especificação de livre preenchimento deve enfrentar exatamente o problema, preservar o núcleo originalmente depositado e respeitar os limites de alteração. Não basta reenviar a mesma redação com pequenas mudanças cosméticas.
Em seguida, confira o prazo na publicação oficial e a petição aplicável. Registre o protocolo e mantenha os documentos que demonstram a atividade do requerente. O próprio INPI informa que contrato social, atos constitutivos e outros comprovantes devem ser guardados, pois podem ser exigidos durante o exame.
Se a correção pretendida ampliar o pedido, a resposta provavelmente não resolverá o problema. Nesse cenário, será necessário avaliar a restrição possível e a conveniência de um novo depósito. A análise jurídica ajuda a evitar respostas incompatíveis com o histórico do processo.
Perguntas frequentes
A especificação livre é obrigatória para atividades inovadoras?
Não. Primeiro, procure termos pré-aprovados e faça analogias com as listas oficiais. Use o campo livre apenas quando essas opções não descreverem adequadamente o produto ou serviço.
Posso misturar itens pré-aprovados e livres?
Sim. O formulário do código 394 permite selecionar itens pré-aprovados e complementar a lista com expressões livres, desde que todos pertençam à mesma classe.
Uma especificação pode proteger várias classes?
Não no mesmo pedido. Cada protocolo deve abranger uma única classe. Uma empresa que precise de proteção em classes diferentes deverá estruturar pedidos separados.
A especificação livre garante o registro?
Não. O INPI ainda examina os demais requisitos legais, inclusive a distintividade e a existência de marcas anteriores. A aceitação classificatória não equivale ao deferimento final.
Um anexo pode substituir a especificação de livre preenchimento?
Não. A Portaria INPI nº 8/2022, citada no Manual, determina que a especificação livre seja inserida no campo próprio. Um documento anexo não substitui esse conteúdo.
Conclusão: planejamento reduz exigências e protege o negócio real
Em síntese, o pedido de registro de marca com especificação de livre preenchimento é uma ferramenta útil, mas não deve funcionar como atalho. Assim, o melhor resultado surge quando classe, atividade e redação são definidos em conjunto. Essa preparação reduz exigências e evita uma proteção desconectada do negócio.
A Rocco & Canonica analisa a atividade, a classificação e os riscos de conflito antes do protocolo. Também acompanha exigências e demais atos do processo. Para receber orientação sobre a estratégia adequada, conheça nosso serviço de registro de marca no INPI.

