O que é deepfake e por que ele virou um problema jurídico

Tempo de leitura: 4 minutos

A expressão “deepfake” tem aparecido cada vez mais em notícias, redes sociais e discussões sobre tecnologia e Direito Digital. Vídeos falsos, áudios manipulados e imagens hiper-realistas levantam uma dúvida legítima: o que é deepfake e por que ele passou a preocupar não só o público em geral, mas também empresas, criadores de conteúdo e o próprio Judiciário?

Neste artigo, explico de forma clara e acessível o conceito de deepfake, como essa tecnologia funciona, quais são seus usos lícitos e, principalmente, quando ela passa a representar um risco jurídico real.

O que é deepfake, afinal?

Deepfake é uma técnica baseada em inteligência artificial que permite criar ou alterar vídeos, imagens e áudios de forma extremamente realista. O nome vem da junção de deep learning (aprendizado profundo) com fake (falso).

Na prática, essa tecnologia consegue “ensinar” um sistema a reproduzir o rosto, a voz e os movimentos de uma pessoa real, inserindo-os em um conteúdo que nunca existiu.

Isso explica por que muitos deepfakes são difíceis de identificar a olho nu — e por que o tema se tornou tão sensível do ponto de vista jurídico.

Como a tecnologia de deepfake funciona

Sem entrar em termos técnicos excessivos, o funcionamento do deepfake se baseia em redes neurais treinadas com grande volume de dados, como fotos, vídeos e áudios de uma pessoa específica.

Quanto maior o material disponível, mais preciso tende a ser o resultado. Redes sociais, vídeos públicos e entrevistas acabam, muitas vezes, fornecendo a “matéria-prima” para esse tipo de manipulação.

Mas atenção, porque o ponto central aqui é outro: o problema não está na tecnologia em si, mas no uso que se faz dela.

Deepfake é sempre ilegal?

Não. E esse é um ponto importante.

Existem usos lícitos e legítimos da tecnologia, como:

  • produções audiovisuais autorizadas;

  • dublagens e efeitos especiais no cinema;

  • conteúdos educacionais e artísticos;

  • simulações com consentimento expresso.

O problema surge quando o deepfake é utilizado sem autorização, especialmente para:

  • enganar;

  • manipular;

  • difamar;

  • extorquir;

  • causar dano à imagem ou à reputação de alguém.

É nesse momento que o tema deixa de ser apenas tecnológico e passa a ser jurídico.

Os principais riscos no Brasil

No Brasil, ainda não existe uma lei específica que trate exclusivamente do deepfake. Isso não significa, porém, que a prática fique sem punição.

Dependendo do caso, o uso indevido dessa tecnologia pode violar:

  • direitos da personalidade (imagem, honra, voz);

  • direitos autorais;

  • normas do Código Civil;

  • dispositivos do Código Penal;

  • regras da LGPD, quando envolve dados pessoais sensíveis.

Casos de deepfake já têm sido enquadrados como danos morais, falsidade ideológica, estelionato, difamação e até violência digital, a depender da finalidade e do impacto do conteúdo.

Deepfake, imagem e consentimento

Um ponto central nas discussões jurídicas é o uso da imagem sem consentimento. A Constituição Federal e o Código Civil protegem expressamente o direito à imagem, independentemente de haver prejuízo financeiro.

Quando alguém tem seu rosto ou voz utilizados em um deepfake sem autorização, especialmente em contextos constrangedores ou enganosos, o dano jurídico costuma ser presumido.

Isso vale tanto para pessoas públicas quanto para pessoas comuns — aliás, em muitos casos, o impacto para quem não tem exposição pública pode ser ainda maior.

Deepfake e o ambiente digital

O avanço dos deepfakes se conecta diretamente com temas mais amplos do Direito Digital, como responsabilidade civil na internet, provas digitais e remoção de conteúdo.

Plataformas digitais, por sua vez, têm sido pressionadas a agir mais rapidamente quando notificadas sobre conteúdos manipulados, especialmente após decisões judiciais que reconhecem a responsabilidade por omissão em certos casos.

Como identificar e reagir a um deepfake

Nem sempre é simples identificar um deepfake, mas alguns sinais ajudam:

  • movimentos faciais artificiais;

  • sincronização estranha de voz e imagem;

  • expressões pouco naturais;

  • qualidade inconsistente em detalhes específicos.

Do ponto de vista jurídico, o mais importante é agir rápido. Reunir provas, registrar o conteúdo, identificar onde ele está sendo divulgado e buscar a remoção são medidas essenciais para reduzir danos.

Em situações mais graves, pode ser necessário ingressar com medidas judiciais para:

  • retirada imediata do conteúdo;

  • identificação dos responsáveis;

  • indenização por danos morais e materiais.

Deepfake, empresas e reputação

Para empresas, o risco é ainda mais estratégico. Um deepfake pode:

  • gerar crises reputacionais;

  • afetar ações e contratos;

  • induzir clientes ao erro;

  • causar prejuízos financeiros relevantes.

Por isso, o tema tem sido tratado não apenas como questão jurídica, mas também como parte de gestão de risco digital.

Empresas que atuam no ambiente online precisam entender que deepfake não é um problema distante ou teórico — ele já faz parte da realidade.

Informação como primeira linha de defesa

Entender o que é deepfake e como essa tecnologia pode ser usada de forma abusiva é o primeiro passo para se proteger. A ignorância sobre o tema não impede o dano, apenas aumenta a vulnerabilidade.

O Direito Digital surge exatamente para oferecer instrumentos de prevenção, reação e responsabilização em cenários como esse, cada vez mais comuns no ambiente online.

Como agir juridicamente

Situações envolvendo deepfake exigem análise técnica e jurídica combinadas. Não existe uma solução única para todos os casos, mas agir de forma estratégica faz toda a diferença no resultado.

Se você foi vítima de um deepfake, tem sua imagem ou voz sendo usadas indevidamente, ou quer estruturar medidas preventivas para proteger sua marca ou conteúdo, a orientação jurídica especializada é essencial.

Buscar ajuda no momento certo pode evitar danos maiores, preservar sua reputação e garantir que seus direitos sejam respeitados no ambiente digital.

Compartilhe este conteúdo!

Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin

Scott Rocco Dezorzi

Advogado Especialista em Direito Digital, Propriedade Intelectual e Proteção de Dados

Não perca nada que publicarmos aqui!

Inscreva-se em nossa newsletter.

Você se inscreveu com sucesso! Ops! Algo deu errado. Tente novamente.

Continua com dúvidas?

Entre em contato agora mesmo.

(48) 9 9218 4779 | @roccoecanonica
contato@roccoadvocacia.com.br

NOSSAS REDES

PREFERE UM E-MAIL?

ROCCO & CANONICA - ADVOGADOS | CNPJ 53.414.110/0001-66 | OAB/SC nº 9554 | 2025 | TODOS OS DIREITOS RESERVADOS | POLÍTICA DE PRIVACIDADE | POLÍTICA DE COOKIES

Rolar para cima

Converse conosco!